Provocações Educativas por Marcos Noggerini
Durante muito tempo na educação e infelizmente ainda até hoje em muitas situações, decorar as informações foi à forma encontrada pelas pessoas para enfrentar testes, exames e concursos. A capacidade de memorizar as informações, não importando muito se significativas ou não foi muito valorizada. Saber as capitais de estados e países que nem se sabia onde localizam, saber os afluentes da margem direita de um rio e muitas outras cobranças que estão na memória das pessoas que passaram pelo sistema escolar. Porém pode-se dizer que a situação mudou muito? Afinal a educação mudou, as informações são facilmente obtidas, pode-se consultar ao invés de decorar, precisa-se aprender sim, a saber pesquisar, ler, compreender e fazer da informação um conhecimento e se possível do conhecimento obter sabedoria para aplicar em diferentes situações. Mas, infelizmente como já mencionado, em muitos locais, a cobrança por dados, ainda continua pressionando as mentes dos alunos, ocupando tempo e espaço na memória, que deveria ser ocupado com questões mais fundamentais. Será que os exames realmente examinam, se examinam, examinam o quê? A nossa capacidade de aprender, ou de decorar? Os testes e exames fazem parte de um processo de avaliação, avaliação, que muitas vezes foi confundida com punição e não entendida como parte do processo de aprendizagem. As provas da forma como vem sendo preparadas e aplicadas realmente conseguem provar que os alunos aprenderam? Os exames e concursos conseguem selecionar os melhores candidatos? Muitas escolas se aperfeiçoaram na capacidade de fazer as pessoas passarem nos exames, como se a educação se resumisse nesse objetivo. Mas qual é mesmo o objetivo da escola? Educar, preparar para o trabalho, formar para vida, o lazer, o consumo, enfim a cidadania... Será que as provas e os exames conseguem selecionar e avaliar esses objetivos? Segundo a minha lógica, quando se avalia, procura-se verificar a obtenção dos objetivos e não a capacidade de memorização ou de armazenagem de informações ou conteúdos. Parece que essa lógica foi invertida. Vejamos por exemplo uma auto-escola, ela prepara as pessoas para dirigir ou para passar no exame? Não é preciso muita análise para perceber que o importante é passar no teste, aprender a dirigir mesmo, aprende-se depois, ou antes, mesmo com menor idade. Porém uma incoerência ainda maior, muitos que sabem dirigir quando vão fazer o exame não passam e outros que mecanicamente seguiram as orientações do instrutor, ou seria adestrador, passam no exame. Aprendemos, quer dizer, repetimos exaustivamente como se estivéssemos decorando nas aulas preparatórias, apenas as atividades cobradas no exame e melhor ainda, nesse exame já sabemos quais questões vão cair, o que não ocorre na vida? Os concursos são outra história à parte, cursinhos são criados para preparar só para o exame. A escolas, ou as faculdades não prepararam para o exame, daí a necessidade de corrigir essa falha da escola, mas será que foi uma falha mesmo, ou os objetivos da escola são diferentes dos objetivos do exame? Outro dia viajando de ônibus, estava lendo um autor que gosto muito, quando uma professora sentou ao meu lado e ao ver o que eu estava lendo, perguntou se iria haver algum concurso. Disse que não, e ela se espantou, reforcei que estava lendo, pois considero esse autor muito importante para o meu trabalho. Ela ficou chocada, pois estava traumatizada por ler aquele mesmo autor para um concurso recente, pediu licença e foi sentar em outro banco. Aí está demonstrada a cultura da obrigação, que ao invés de ser útil, causa aversão. Pensando no vestibular, existem escolas, que já se especializam desde cedo na preparação para concursos, pensam que não adianta perder tempo em aprender coisas, não dá para aprender tudo, é muito conteúdo para dar conta, quanto mais conteúdos, maior a probabilidade de reter uma porcentagem elevada de informações que serão devolvidas, ou seria melhor dizer, vomitadas nos testes. Será que após o vestibular, por exemplo, fica alguma coisa de conhecimento útil e significativo que possa ser aplicado na vida e no trabalho? Como reforça sempre o educador Rubem Alves, será que os professores e reitores de universidade passariam no vestibular se o prestassem hoje? Muito do que é cobrado não é útil, nem significativo, servindo apenas de pressão, coerção, um teste mais emocional do que de conhecimento. Dessa forma, tanto a escola, como o conhecimento, passam a ser coisas associadas ao medo, a coerção, com muita gente passando a não gostar de estudar e principalmente a ter pavor de testes e provas, não vendo a hora de terminar os anos de escolarização, como se a educação e o estudo não fossem tarefas para vida toda, na qual precisaríamos ter desenvolvido o gosto, a curiosidade, paixão e a autonomia para provocar uma educação continuada. As avaliações deveriam ser momentos de motivação, onde se encontra a possibilidade de verificar o que aprendeu, mas também o que não aprendeu, pois a partir dos erros pode-se buscar os acertos. A decoreba deveria ser deixada de lado, pois quando se aprende de fato, prestando atenção nos processos, nas situações, nas diversas fontes de informações, na vida e buscando significado, nem é preciso estudar, pois esse já é o estudo. Quanta gente pode-se conhecer que possui essa postura, será que eles é que estão errados? Cabe aqui relembrar o trecho da música de Beto Guedes “Sol de Primavera”, que não decorei, mas posso dizer que aprendi, pois tem significado: “a lição sabemos décor, só nos resta aprender”. Necessita-se rever a forma de avaliar e para isso é preciso também rever a forma de ensinar.
Professor Marcos Noggerini – marcos.noggerini@gmail.com
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