Provocações Educativas
por Marcos Noggerini
Nesse artigo uma análise da nossa democracia, uma solução ou um problema? Por que ainda não sabemos lidar com ela? Como buscar uma autêntica democracia? Quê barreiras iremos enfrentar? Espero que essa mensagem provoque ações e quem sabe até desperte vocações, estamos precisando de verdadeiros democratas!
Vivemos numa democracia?
Vivemos em uma sociedade onde a democracia é tida como a melhor forma de organizar grupos e gerir os processos, mas a postura da maioria das pessoas continua sendo individualista, atrelada a privilégios e interesses pessoais em detrimento dos coletivos, atitudes incoerentes com a democracia. O educador Paulo Freire apontava desde a década de 50, que vivemos as conseqüências de uma inexperiência democrática, que é marcante não só no Brasil, mas em diversos países. Já fazem quase vinte anos que recuperamos a democracia e ainda estamos experimentando. Mas, como nos tornamos experientes na democracia? Como superar a cultura do individualismo? Isso seria possível? Ou vocês são da opinião de que o mundo é assim e nunca vai mudar? Esse último argumento é um bom discurso para quem está usufruindo privilégios, ou até pode ser usado pelos acomodados, o que não resolve o problema. Democracia pressupõe a participação de todos os envolvidos no processo, de forma direta ou indireta, na organização e gestão das instituições. Mas, como tem sido essa participação: na família, na escola, na comunidade, nas associações e nas empresas? Algumas nem são democráticas por opção, mas devem deixar isso claro, pois existem outros modelos de gestão e devemos respeitar. Porém quem assume o discurso e quer tornar a gestão democrática, deve buscar condições para que isso ocorra. Em muitos casos a democracia tem se resumido ao voto, mas isso é muito pouco, pois quando se votam idéias e não se busca o consenso, os descontentes podem não apoiar e até pior, boicotar a implementação da idéia. A busca do consenso é tida como demorada, um argumento muito usado por quem não quer a democracia autêntica, mas essa demora não seria por causa da inexperiência democrática? No caso da escolha de representantes, modelo da nossa política, o problema ainda persiste quando o representante não consulta as bases, ou ainda quando não deixou claras suas idéias e posturas para o seu eleitorado. Cabe aqui lembrar, que muitos elegem seus representantes de acordo com interesses pessoais e privilégios e não pela forma de analisar e decidir sobre os aspectos que envolvem a comunidade. Analisando as causas, muitos ainda acham que o poder de decisão não deve ser delegado a todos, seria herança das eleições indiretas do período ditatorial, assim não é de se espantar quando se ouve que alguns têm saudades do período militar. Nessa postura, entendem que apenas os líderes têm capacidade para decidir, pois são os especialistas e no fim são eles que assumem as responsabilidades. Porém um alerta, como cobrar comprometimento, cidadania e apoio de quem não foi envolvido no processo? A real democracia, autêntica, entendida além do voto, ainda está distante da realidade de muitas instituições. Envolver, planejar e decidir com as pessoas, respeitando seu potencial, propiciando direitos e cobrando deveres, será muito mais coerente e autêntico por parte de quem defende a democracia como forma de gestão, do que os exemplos camuflados de democracia que temos visto com meros comunicados, caixas de sugestões e votações em grupos pequenos, sem buscar o consenso de idéias. Na política temos um grande exemplo, onde em inúmeros casos os projetos votados, por mais valiosos que sejam para o bem estar coletivo, não são aprovados por um representante de um partido quando a idéia é de outro. Eles foram eleitos para decidir sobre o que é melhor para o povo, ou realizar uma competição de idéias?
O caminho para solução desses problemas está na busca do exercício verdadeiro da democracia. O trabalho em grupos através da cooperação, exercitando a comunicação, ao ouvir e expor idéias, a construção da confiança, a análise coletiva de problemas, a busca de consensos, a construção da identidade dos grupos, o exercício da autonomia e da real representatividade, que auxiliará na diminuição do tempo para as decisões. Esse processo deve passar a ocorrer nas diversas instâncias de participação: partindo da família, passando pela escola, igrejas, associações, partidos políticos, empresas e grupos em geral interessados na construção de uma autêntica democracia. Várias são as características necessárias às pessoas para atuar democraticamente: ousadia, “pé no chão”, criatividade, organização, e muitas outras características que são impossíveis numa única pessoa, mas são necessárias ao trabalho em equipe. Se não podemos tê-las sozinhos, nos grupos podemos encontrar. Somos todos diferentes e na diferença pode estar a riqueza, podemos combinar, como o arroz com o feijão, como o café com o leite, elementos que mesmo diferentes se complementam, formando um todo mais autêntico e coerente. Cabe aqui, para finalizar, uma história:
Numa das glaciações, os porcos espinhos viveram um desafio, ou se juntavam para aproveitar o calor dos corpos dos outros para suportar o frio, ou morreriam. Alguns não agüentaram a dor provocada pelos espinhos dos outros e se separaram, o que os levou a morte. Os que suportaram, compreendendo o problema, sobreviveram. Que lição tiramos disso?
Todos nós temos espinhos, cabe aqui reconhecê-los e buscar ferir o menos possível nosso semelhante, compreendendo seus espinhos, assim estaremos buscando uma autêntica democracia, que levará a solução dos nossos problemas. Vamos começar pelo exercício da convivência, da busca de consensos, o que é melhor e possível não só para alguns, mas para todos, nem que para isso necessitemos de suportar espinhos.
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