quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

“Um mais um é sempre mais que dois”

Provocações Educativas por Marcos Noggerini
Nessa artigo espero trazer uma contribuição para forma de analisar, compreender e contextualizar os problemas que enfrentamos no cotidiano, quem sabe proporcionar um olhar diferenciado, complementar ao que já temos utilizado, que possam elucidar relações que ainda não havíamos percebido, sempre tendo em mente que quanto mais olhares, mais idéias e soluções podem surgir. Vamos, provocar ações...
“O todo maior do que a soma das partes” – “Um mais um é sempre mais que dois”
Essa frase, atribuída ao matemático Pascal, trás consigo uma crítica a um modo de pensar que preponderou durante anos na Filosofia e mais destacadamente na Ciência, invadiu o mundo do trabalho, marcadamente com a Revolução industrial, as instituições de ensino e conseqüentemente a postura e as ações das pessoas em diversos contextos. Dividir as situações, os problemas e os acontecimentos da realidade em áreas para analisar aprofundada e detalhadamente suas características, com a idéia, pelo menos inicial, de que esse método, idealizado por Descartes, pudesse contribuir, mediante a soma das partes, para a compreensão do todo. Porém o que se viu a partir de então? A forte influência desse método possibilitou inúmeros avanços, ao mesmo tempo em que provocou diversos problemas. A hiperespecialização foi instituída, com os cientistas cada vez mais buscando saber muito de pouco, criando feudos em áreas do conhecimento, que impossibilitaram o diálogo integrador necessário para superar problemas e principalmente lidar com as conseqüências das inovações que invadem outras áreas. O pintor Salvador Dali ilustrou de forma curiosa tal fragmentação no quadro “móvel antropomórfico” (1936), podendo representar o acúmulo de informações sem significado depositadas em de gavetas, a figura também demonstra aversão pelo conteúdo a ser depositado, que não suporta mais. Lembraria para os educadores, o modelo de educação bancária, descrito pelo educador brasileiro Paulo Freire em “Pedagogia do Oprimido”. Apesar das críticas desde muito tempo, essa forma de pensar avançou. No trabalho, marcadamente a indústria soube tirar proveito desse pensamento, organizando o trabalho em tarefas, etapas, áreas e responsabilidades. Porém isso ocasionou e ainda vem ocasionado à alienação e a acomodação de muitos, pois fragmentou projeto, processo e produto dos serviços, impedindo a compreensão do todo e gerando também desmotivação e falta de comprometimento de quem não sabe por quê e para quê faz o que faz. Pascal novamente, preocupado com essa fragmentação que não via sentido, destaca a impossibilidade de se compreender o todo sem compreender as partes, assim como conhecer as partes sem compreender o todo. Jogo de poder, de interesses, “nem todos precisam saber de tudo”, falta de transparência, busca dos culpados e transferência de responsabilidades, são alguns dos problemas causados por essa forma de pensar, de organizar de fazer. Daí vem à afirmação empírica de que “santo de casa não faz milagre”, pois quem chega de fora pode levar algumas vantagens, como a frieza na análise, auxiliada pela ausência de relações e interesses que, para quem está dentro podem impedir a busca da verdade, ou até gerar atitude de não querer encontrá-la, ou será que estão tão próximos do problema que não conseguem enxergá-lo? Quanto mais isoladas as partes, maior a facilidade de se esconder os problemas, pois nem todos sabem de tudo. Outro exemplo vem da medicina, como destaca Edgar Morin, filosofo francês da atualidade, quantas enfermidades não são melhor enfrentas, devido à fragmentação em especialidades, além da separação entre doenças do corpo e da mente. As instituições de ensino, como não poderia deixar de ser, pois formaram pessoas com esse pensamento, também foram organizadas nessa lógica. A fragmentação do conhecimento em disciplinas definiu temas como sendo tópicos, por vezes até exclusivos de determinadas áreas. Além disso, muitas vezes dentro de uma mesma disciplina, os tópicos ou conteúdos foram tratados isoladamente, fazendo com que os alunos não percebessem as inúmeras relações que se pode estabelecer para que a compreensão possa ser mais efetiva e significativa. Por vezes, devido à formação fragmentada, nem mesmo os professores possuem condições de estabelecer tais relações, pois sua formação também foi feita nas instituições de nível superior de forma estanque. Na escola ensinam a decompor, a simplificar, a isolar para compreender, a buscar facilidades, ao invés de ensinar a compor, a perceber as relações, a contextualizar. Hoje quando na escola pedimos para ler uma obra literária, os alunos nem querem saber da vida do autor: as influências que recebeu, em que época viveu, sua forma de pensar. Normalmente os alunos pulam o prefácio e vão direto ao assunto, sem querer se informar sobre o contexto da obra, isso quando não vão direito para os resumos. Não é de se admirar, portanto, a falta de prazer na leitura, pois muito do encanto das obras literárias estão nessa necessária contextualização, que deveria ser curiosa e provocativa. Se a mesma tarefa for proposta em grupo então, a fragmentação pode chegar a tal ponto, que cada um pode ler um capítulo. Mas, quem compreenderá o todo? Esse pensamento faz parte de uma cultura imediatista e superficial, que já está impregnada até na visão do aluno. Outro exemplo pode vir da Geografia, onde estudamos a formação geológica, o relevo, a hidrografia, a vegetação, a população, a cultura e a economia de forma isolada, não estabelecendo as relações tão evidentes que podem enriquecer a visão e a compreensão dos jovens para análise da realidade, isso sem contar com a possibilidade de integração com outras disciplinas como Ciências, História, Matemática e outras áreas do conhecimento. Trazer a compreensão para as pessoas: de por quê um povo, em determinada época, ocupou determinado espaço, desenvolveu diferentes formas de trabalho, explorou recursos, promoveu modificações, respeitou ou interferiu na natureza e trouxe determinadas conseqüências. A riqueza dessa análise pode contribuir não apenas para a compreensão do povo específico em estudo, mas oferecer a oportunidade de que com as ferramentas utilizadas para compreender esse povo, pode-se a partir daí compreender outros mais, inclusive a sua própria realidade. Isso é aprender a aprender. Essa é uma mostra do que a visão sistêmica pode proporcionar. Agora temos um grande desafio: o nosso principal problema atual é a nossa forma de resolver problemas, como romper com essa cultura? Muitas escolas já têm dado exemplos de projetos que procuram integrar disciplinas, muitas equipes de profissionais têm analisado os problemas de forma multidisciplinar, esse pode ser o caminho, mas como sempre em educação precisamos de tempo, mas não só dele, precisamos de ações coletivas e cooperativas. Afinal, como de forma sistêmica, integrativa e contradizendo a lógica matemática, mencionou Beto Guedes na música “Sal da Terra”: “... um mais um é sempre mais que dois...”.

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