Provocações Educativas por Marcos Noggerini
A partir desse artigo o desafio é tentar perceber o quanto à linha de montagem ainda está impregnada nas nossas vidas, nos serviços que fazemos ou usamos. Um alerta para o resgate do potencial humano e um apoio ao exercício da cidadania e da democracia. Espero que esse texto provoque reflexões e ações...
O que produz a linha de montagem?
A idéia de analisar as partes para tentar compreender o todo influenciou os diversos setores da vida. Com ela também foi reforçada a tese de que as tarefas deveriam ser repartidas entre as pessoas, gerando a já tradicional divisão do trabalho. Mas, como essa divisão do trabalho foi feita e o que ela causou? Teoricamente a divisão de tarefas é algo necessário, pois possibilita o aprimoramento cada vez maior das habilidades em uma parte específica da tarefa. A especialização tomou conta do pensamento das pessoas, que buscaram o extremo aprimoramento, chegando até a mecanização ou automatização dos movimentos necessários à implementação das suas partes específicas. Evitar o desperdício de tempo, acelerar a produção e ganhar em produtividade e padronização. Quem teve a idéia, quem se aproveitou e ainda se aproveita desses conceitos? Inicialmente Taylor, estudando o ambiente de trabalho, percebeu a vantagem de uma melhor organização, para economia de tempo e energia no trabalho, gerando uma maior produtividade. Baseado em suas idéias, Henry Ford, desenvolveu a tão conhecida linha de montagem, onde ao invés de se deslocar o trabalhador receberia em suas mãos, através de uma esteira rolante, o objeto do seu trabalho, dispondo do tempo de passagem da esteira para realizar a tarefa, uma forma de controlar o tempo de produção, usando a velocidade da esteira como fator de cobrança. Charles Chaplin imortalizou a linha de montagem no filme “Tempos Modernos”, onde mostra os efeitos da automatização dos movimentos no corpo e na mente dos trabalhadores. Agora um desafio: alguém poderia me dizer o que a fábrica do filme produzia? O que produz a linha de montagem?
A produção industrial foi marcada por esses princípios, principalmente na Fábrica, mas pudemos também perceber essa influência em diversos setores, em todas e quaisquer tarefas onde essa visão fragmentada de trabalho em grupo pode ser adaptada. Porém, essa forma de trabalho em grupo, inviabiliza o diálogo, torna a comunicação direta, incompleta e reduzida, evitando possibilidades de questionamento, cria as receitas, os manuais de instrução, tutelando e controlando as pessoas que por vezes podem tornar-se felizes, pois isso facilita o trabalho, porém nega o potencial de compreensão, criação e solução de problemas, enfim torna as pessoas objetos, ou simplesmente ferramentas dentro do processo de produção. O baixo nível educacional das pessoas apontou a necessidade desse caminho, porém hoje com a crescente aumento dos níveis educacionais, a busca de uma participação mais consciente por parte das pessoas deve ganhar espaço, aumentando assim o comprometimento através de uma visão mais ampla e significativa do trabalho. A automatização de tarefas, a repetição e a pressão do tempo só tem gerado uma postura desmotivada, alienada e acomodada, pois com elas, estão atrelados à dependência, a impossibilidade de lidar com a incerteza, ou até infelizmente, a idéia de que as coisas são assim mesmo e nunca mudam. Nos escritórios e repartições, as tradicionais mesas e balcões criaram um modelo chamado por diversos autores de “balcanização”, que burocratiza, emperra e retarda processos e soluções. Assim ficou evidente uma constatação empírica por parte de muitas pessoas, de que uma sala leva a outra, uma mesa leva a outra e sempre o que queremos não é com a pessoa com quem falamos, gerando uma postura sempre muito usada em processos organizados dessa forma, a transferência de responsabilidade. Na escola, muitos desses conceitos também foram utilizados, repetição, automatização e fragmentação do trabalho. Cópias, decorebas, receitas, rotinas, etc. A especialização precoce também foi destaque, com as escolas técnicas preparando desde muito cedo os jovens para tarefas específicas, por vezes impedindo a visão do todo, tão necessária ao comprometimento, a autonomia e a motivação das pessoas. Isso sem contar que com tanta especialização, o que fazer em caso de desemprego, redução do mercado de trabalho, ou até extinção da profissão. Hoje em muitas das escolas técnicas percebe-se uma postura diferenciada, porém sabemos o quanto é difícil superar uma marca profunda na mentalidade, nos valores e nas posturas das pessoas, ainda mais quando esse modelo até demonstra resultados eficientes em termos de produtividade, pois muitas pessoas ainda não conseguem enxergar o trabalho em outro modelo e tem dificuldade em perceber que a mudança leva tempo, porém em médio prazo pode trazer inúmeros benefícios. E qual seria esse outro modelo? Em primeiro lugar não seria um modelo, uma receita que se adapte em qualquer lugar, seria uma metodologia que levasse em conta as pessoas envolvidas, respeitando suas individualidades, passando por um processo de construção da identidade, buscando a motivação e a democracia para satisfação, alegria e produtividade nos processos. Em muitos locais as ilhas de produção já tem sido usadas de forma criativa e já tem contribuído para uma melhora no comprometimento, motivação e produtividade por parte das pessoas que sentindo-se mais valorizadas demonstram maior satisfação e empenho. O bom senso sempre poderá ajudar os grupos a encontrarem formas de organização do trabalho que respeitem o potencial humano e o seu caráter insubstituível de criação, trabalho em equipe, comunicação e construção da autonomia. As empresas, o governo, as instituições de ensino devem refletir sobre a necessidade de conscientização por parte de todos dos processos e planejamentos, pois só assim saberemos: Quem somos? O que fazemos? Como estamos? O que queremos? Para onde vamos? Ou seja, não basta estar no barco, precisamos saber como e para onde remar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário