quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Vivemos numa democracia?

Provocações Educativas
por Marcos Noggerini
Nesse artigo uma análise da nossa democracia, uma solução ou um problema? Por que ainda não sabemos lidar com ela? Como buscar uma autêntica democracia? Quê barreiras iremos enfrentar? Espero que essa mensagem provoque ações e quem sabe até desperte vocações, estamos precisando de verdadeiros democratas!
Vivemos numa democracia?
Vivemos em uma sociedade onde a democracia é tida como a melhor forma de organizar grupos e gerir os processos, mas a postura da maioria das pessoas continua sendo individualista, atrelada a privilégios e interesses pessoais em detrimento dos coletivos, atitudes incoerentes com a democracia. O educador Paulo Freire apontava desde a década de 50, que vivemos as conseqüências de uma inexperiência democrática, que é marcante não só no Brasil, mas em diversos países. Já fazem quase vinte anos que recuperamos a democracia e ainda estamos experimentando. Mas, como nos tornamos experientes na democracia? Como superar a cultura do individualismo? Isso seria possível? Ou vocês são da opinião de que o mundo é assim e nunca vai mudar? Esse último argumento é um bom discurso para quem está usufruindo privilégios, ou até pode ser usado pelos acomodados, o que não resolve o problema. Democracia pressupõe a participação de todos os envolvidos no processo, de forma direta ou indireta, na organização e gestão das instituições. Mas, como tem sido essa participação: na família, na escola, na comunidade, nas associações e nas empresas? Algumas nem são democráticas por opção, mas devem deixar isso claro, pois existem outros modelos de gestão e devemos respeitar. Porém quem assume o discurso e quer tornar a gestão democrática, deve buscar condições para que isso ocorra. Em muitos casos a democracia tem se resumido ao voto, mas isso é muito pouco, pois quando se votam idéias e não se busca o consenso, os descontentes podem não apoiar e até pior, boicotar a implementação da idéia. A busca do consenso é tida como demorada, um argumento muito usado por quem não quer a democracia autêntica, mas essa demora não seria por causa da inexperiência democrática? No caso da escolha de representantes, modelo da nossa política, o problema ainda persiste quando o representante não consulta as bases, ou ainda quando não deixou claras suas idéias e posturas para o seu eleitorado. Cabe aqui lembrar, que muitos elegem seus representantes de acordo com interesses pessoais e privilégios e não pela forma de analisar e decidir sobre os aspectos que envolvem a comunidade. Analisando as causas, muitos ainda acham que o poder de decisão não deve ser delegado a todos, seria herança das eleições indiretas do período ditatorial, assim não é de se espantar quando se ouve que alguns têm saudades do período militar. Nessa postura, entendem que apenas os líderes têm capacidade para decidir, pois são os especialistas e no fim são eles que assumem as responsabilidades. Porém um alerta, como cobrar comprometimento, cidadania e apoio de quem não foi envolvido no processo? A real democracia, autêntica, entendida além do voto, ainda está distante da realidade de muitas instituições. Envolver, planejar e decidir com as pessoas, respeitando seu potencial, propiciando direitos e cobrando deveres, será muito mais coerente e autêntico por parte de quem defende a democracia como forma de gestão, do que os exemplos camuflados de democracia que temos visto com meros comunicados, caixas de sugestões e votações em grupos pequenos, sem buscar o consenso de idéias. Na política temos um grande exemplo, onde em inúmeros casos os projetos votados, por mais valiosos que sejam para o bem estar coletivo, não são aprovados por um representante de um partido quando a idéia é de outro. Eles foram eleitos para decidir sobre o que é melhor para o povo, ou realizar uma competição de idéias?
O caminho para solução desses problemas está na busca do exercício verdadeiro da democracia. O trabalho em grupos através da cooperação, exercitando a comunicação, ao ouvir e expor idéias, a construção da confiança, a análise coletiva de problemas, a busca de consensos, a construção da identidade dos grupos, o exercício da autonomia e da real representatividade, que auxiliará na diminuição do tempo para as decisões. Esse processo deve passar a ocorrer nas diversas instâncias de participação: partindo da família, passando pela escola, igrejas, associações, partidos políticos, empresas e grupos em geral interessados na construção de uma autêntica democracia. Várias são as características necessárias às pessoas para atuar democraticamente: ousadia, “pé no chão”, criatividade, organização, e muitas outras características que são impossíveis numa única pessoa, mas são necessárias ao trabalho em equipe. Se não podemos tê-las sozinhos, nos grupos podemos encontrar. Somos todos diferentes e na diferença pode estar a riqueza, podemos combinar, como o arroz com o feijão, como o café com o leite, elementos que mesmo diferentes se complementam, formando um todo mais autêntico e coerente. Cabe aqui, para finalizar, uma história:
Numa das glaciações, os porcos espinhos viveram um desafio, ou se juntavam para aproveitar o calor dos corpos dos outros para suportar o frio, ou morreriam. Alguns não agüentaram a dor provocada pelos espinhos dos outros e se separaram, o que os levou a morte. Os que suportaram, compreendendo o problema, sobreviveram. Que lição tiramos disso?
Todos nós temos espinhos, cabe aqui reconhecê-los e buscar ferir o menos possível nosso semelhante, compreendendo seus espinhos, assim estaremos buscando uma autêntica democracia, que levará a solução dos nossos problemas. Vamos começar pelo exercício da convivência, da busca de consensos, o que é melhor e possível não só para alguns, mas para todos, nem que para isso necessitemos de suportar espinhos.

O que produz a linha de montagem?

Provocações Educativas por Marcos Noggerini
A partir desse artigo o desafio é tentar perceber o quanto à linha de montagem ainda está impregnada nas nossas vidas, nos serviços que fazemos ou usamos. Um alerta para o resgate do potencial humano e um apoio ao exercício da cidadania e da democracia. Espero que esse texto provoque reflexões e ações...
O que produz a linha de montagem?
A idéia de analisar as partes para tentar compreender o todo influenciou os diversos setores da vida. Com ela também foi reforçada a tese de que as tarefas deveriam ser repartidas entre as pessoas, gerando a já tradicional divisão do trabalho. Mas, como essa divisão do trabalho foi feita e o que ela causou? Teoricamente a divisão de tarefas é algo necessário, pois possibilita o aprimoramento cada vez maior das habilidades em uma parte específica da tarefa. A especialização tomou conta do pensamento das pessoas, que buscaram o extremo aprimoramento, chegando até a mecanização ou automatização dos movimentos necessários à implementação das suas partes específicas. Evitar o desperdício de tempo, acelerar a produção e ganhar em produtividade e padronização. Quem teve a idéia, quem se aproveitou e ainda se aproveita desses conceitos? Inicialmente Taylor, estudando o ambiente de trabalho, percebeu a vantagem de uma melhor organização, para economia de tempo e energia no trabalho, gerando uma maior produtividade. Baseado em suas idéias, Henry Ford, desenvolveu a tão conhecida linha de montagem, onde ao invés de se deslocar o trabalhador receberia em suas mãos, através de uma esteira rolante, o objeto do seu trabalho, dispondo do tempo de passagem da esteira para realizar a tarefa, uma forma de controlar o tempo de produção, usando a velocidade da esteira como fator de cobrança. Charles Chaplin imortalizou a linha de montagem no filme “Tempos Modernos”, onde mostra os efeitos da automatização dos movimentos no corpo e na mente dos trabalhadores. Agora um desafio: alguém poderia me dizer o que a fábrica do filme produzia? O que produz a linha de montagem?
A produção industrial foi marcada por esses princípios, principalmente na Fábrica, mas pudemos também perceber essa influência em diversos setores, em todas e quaisquer tarefas onde essa visão fragmentada de trabalho em grupo pode ser adaptada. Porém, essa forma de trabalho em grupo, inviabiliza o diálogo, torna a comunicação direta, incompleta e reduzida, evitando possibilidades de questionamento, cria as receitas, os manuais de instrução, tutelando e controlando as pessoas que por vezes podem tornar-se felizes, pois isso facilita o trabalho, porém nega o potencial de compreensão, criação e solução de problemas, enfim torna as pessoas objetos, ou simplesmente ferramentas dentro do processo de produção. O baixo nível educacional das pessoas apontou a necessidade desse caminho, porém hoje com a crescente aumento dos níveis educacionais, a busca de uma participação mais consciente por parte das pessoas deve ganhar espaço, aumentando assim o comprometimento através de uma visão mais ampla e significativa do trabalho. A automatização de tarefas, a repetição e a pressão do tempo só tem gerado uma postura desmotivada, alienada e acomodada, pois com elas, estão atrelados à dependência, a impossibilidade de lidar com a incerteza, ou até infelizmente, a idéia de que as coisas são assim mesmo e nunca mudam. Nos escritórios e repartições, as tradicionais mesas e balcões criaram um modelo chamado por diversos autores de “balcanização”, que burocratiza, emperra e retarda processos e soluções. Assim ficou evidente uma constatação empírica por parte de muitas pessoas, de que uma sala leva a outra, uma mesa leva a outra e sempre o que queremos não é com a pessoa com quem falamos, gerando uma postura sempre muito usada em processos organizados dessa forma, a transferência de responsabilidade. Na escola, muitos desses conceitos também foram utilizados, repetição, automatização e fragmentação do trabalho. Cópias, decorebas, receitas, rotinas, etc. A especialização precoce também foi destaque, com as escolas técnicas preparando desde muito cedo os jovens para tarefas específicas, por vezes impedindo a visão do todo, tão necessária ao comprometimento, a autonomia e a motivação das pessoas. Isso sem contar que com tanta especialização, o que fazer em caso de desemprego, redução do mercado de trabalho, ou até extinção da profissão. Hoje em muitas das escolas técnicas percebe-se uma postura diferenciada, porém sabemos o quanto é difícil superar uma marca profunda na mentalidade, nos valores e nas posturas das pessoas, ainda mais quando esse modelo até demonstra resultados eficientes em termos de produtividade, pois muitas pessoas ainda não conseguem enxergar o trabalho em outro modelo e tem dificuldade em perceber que a mudança leva tempo, porém em médio prazo pode trazer inúmeros benefícios. E qual seria esse outro modelo? Em primeiro lugar não seria um modelo, uma receita que se adapte em qualquer lugar, seria uma metodologia que levasse em conta as pessoas envolvidas, respeitando suas individualidades, passando por um processo de construção da identidade, buscando a motivação e a democracia para satisfação, alegria e produtividade nos processos. Em muitos locais as ilhas de produção já tem sido usadas de forma criativa e já tem contribuído para uma melhora no comprometimento, motivação e produtividade por parte das pessoas que sentindo-se mais valorizadas demonstram maior satisfação e empenho. O bom senso sempre poderá ajudar os grupos a encontrarem formas de organização do trabalho que respeitem o potencial humano e o seu caráter insubstituível de criação, trabalho em equipe, comunicação e construção da autonomia. As empresas, o governo, as instituições de ensino devem refletir sobre a necessidade de conscientização por parte de todos dos processos e planejamentos, pois só assim saberemos: Quem somos? O que fazemos? Como estamos? O que queremos? Para onde vamos? Ou seja, não basta estar no barco, precisamos saber como e para onde remar.

“Um mais um é sempre mais que dois”

Provocações Educativas por Marcos Noggerini
Nessa artigo espero trazer uma contribuição para forma de analisar, compreender e contextualizar os problemas que enfrentamos no cotidiano, quem sabe proporcionar um olhar diferenciado, complementar ao que já temos utilizado, que possam elucidar relações que ainda não havíamos percebido, sempre tendo em mente que quanto mais olhares, mais idéias e soluções podem surgir. Vamos, provocar ações...
“O todo maior do que a soma das partes” – “Um mais um é sempre mais que dois”
Essa frase, atribuída ao matemático Pascal, trás consigo uma crítica a um modo de pensar que preponderou durante anos na Filosofia e mais destacadamente na Ciência, invadiu o mundo do trabalho, marcadamente com a Revolução industrial, as instituições de ensino e conseqüentemente a postura e as ações das pessoas em diversos contextos. Dividir as situações, os problemas e os acontecimentos da realidade em áreas para analisar aprofundada e detalhadamente suas características, com a idéia, pelo menos inicial, de que esse método, idealizado por Descartes, pudesse contribuir, mediante a soma das partes, para a compreensão do todo. Porém o que se viu a partir de então? A forte influência desse método possibilitou inúmeros avanços, ao mesmo tempo em que provocou diversos problemas. A hiperespecialização foi instituída, com os cientistas cada vez mais buscando saber muito de pouco, criando feudos em áreas do conhecimento, que impossibilitaram o diálogo integrador necessário para superar problemas e principalmente lidar com as conseqüências das inovações que invadem outras áreas. O pintor Salvador Dali ilustrou de forma curiosa tal fragmentação no quadro “móvel antropomórfico” (1936), podendo representar o acúmulo de informações sem significado depositadas em de gavetas, a figura também demonstra aversão pelo conteúdo a ser depositado, que não suporta mais. Lembraria para os educadores, o modelo de educação bancária, descrito pelo educador brasileiro Paulo Freire em “Pedagogia do Oprimido”. Apesar das críticas desde muito tempo, essa forma de pensar avançou. No trabalho, marcadamente a indústria soube tirar proveito desse pensamento, organizando o trabalho em tarefas, etapas, áreas e responsabilidades. Porém isso ocasionou e ainda vem ocasionado à alienação e a acomodação de muitos, pois fragmentou projeto, processo e produto dos serviços, impedindo a compreensão do todo e gerando também desmotivação e falta de comprometimento de quem não sabe por quê e para quê faz o que faz. Pascal novamente, preocupado com essa fragmentação que não via sentido, destaca a impossibilidade de se compreender o todo sem compreender as partes, assim como conhecer as partes sem compreender o todo. Jogo de poder, de interesses, “nem todos precisam saber de tudo”, falta de transparência, busca dos culpados e transferência de responsabilidades, são alguns dos problemas causados por essa forma de pensar, de organizar de fazer. Daí vem à afirmação empírica de que “santo de casa não faz milagre”, pois quem chega de fora pode levar algumas vantagens, como a frieza na análise, auxiliada pela ausência de relações e interesses que, para quem está dentro podem impedir a busca da verdade, ou até gerar atitude de não querer encontrá-la, ou será que estão tão próximos do problema que não conseguem enxergá-lo? Quanto mais isoladas as partes, maior a facilidade de se esconder os problemas, pois nem todos sabem de tudo. Outro exemplo vem da medicina, como destaca Edgar Morin, filosofo francês da atualidade, quantas enfermidades não são melhor enfrentas, devido à fragmentação em especialidades, além da separação entre doenças do corpo e da mente. As instituições de ensino, como não poderia deixar de ser, pois formaram pessoas com esse pensamento, também foram organizadas nessa lógica. A fragmentação do conhecimento em disciplinas definiu temas como sendo tópicos, por vezes até exclusivos de determinadas áreas. Além disso, muitas vezes dentro de uma mesma disciplina, os tópicos ou conteúdos foram tratados isoladamente, fazendo com que os alunos não percebessem as inúmeras relações que se pode estabelecer para que a compreensão possa ser mais efetiva e significativa. Por vezes, devido à formação fragmentada, nem mesmo os professores possuem condições de estabelecer tais relações, pois sua formação também foi feita nas instituições de nível superior de forma estanque. Na escola ensinam a decompor, a simplificar, a isolar para compreender, a buscar facilidades, ao invés de ensinar a compor, a perceber as relações, a contextualizar. Hoje quando na escola pedimos para ler uma obra literária, os alunos nem querem saber da vida do autor: as influências que recebeu, em que época viveu, sua forma de pensar. Normalmente os alunos pulam o prefácio e vão direto ao assunto, sem querer se informar sobre o contexto da obra, isso quando não vão direito para os resumos. Não é de se admirar, portanto, a falta de prazer na leitura, pois muito do encanto das obras literárias estão nessa necessária contextualização, que deveria ser curiosa e provocativa. Se a mesma tarefa for proposta em grupo então, a fragmentação pode chegar a tal ponto, que cada um pode ler um capítulo. Mas, quem compreenderá o todo? Esse pensamento faz parte de uma cultura imediatista e superficial, que já está impregnada até na visão do aluno. Outro exemplo pode vir da Geografia, onde estudamos a formação geológica, o relevo, a hidrografia, a vegetação, a população, a cultura e a economia de forma isolada, não estabelecendo as relações tão evidentes que podem enriquecer a visão e a compreensão dos jovens para análise da realidade, isso sem contar com a possibilidade de integração com outras disciplinas como Ciências, História, Matemática e outras áreas do conhecimento. Trazer a compreensão para as pessoas: de por quê um povo, em determinada época, ocupou determinado espaço, desenvolveu diferentes formas de trabalho, explorou recursos, promoveu modificações, respeitou ou interferiu na natureza e trouxe determinadas conseqüências. A riqueza dessa análise pode contribuir não apenas para a compreensão do povo específico em estudo, mas oferecer a oportunidade de que com as ferramentas utilizadas para compreender esse povo, pode-se a partir daí compreender outros mais, inclusive a sua própria realidade. Isso é aprender a aprender. Essa é uma mostra do que a visão sistêmica pode proporcionar. Agora temos um grande desafio: o nosso principal problema atual é a nossa forma de resolver problemas, como romper com essa cultura? Muitas escolas já têm dado exemplos de projetos que procuram integrar disciplinas, muitas equipes de profissionais têm analisado os problemas de forma multidisciplinar, esse pode ser o caminho, mas como sempre em educação precisamos de tempo, mas não só dele, precisamos de ações coletivas e cooperativas. Afinal, como de forma sistêmica, integrativa e contradizendo a lógica matemática, mencionou Beto Guedes na música “Sal da Terra”: “... um mais um é sempre mais que dois...”.

“A lição sabemos décor, só nos resta aprender”

Provocações Educativas por Marcos Noggerini
Durante muito tempo na educação e infelizmente ainda até hoje em muitas situações, decorar as informações foi à forma encontrada pelas pessoas para enfrentar testes, exames e concursos. A capacidade de memorizar as informações, não importando muito se significativas ou não foi muito valorizada. Saber as capitais de estados e países que nem se sabia onde localizam, saber os afluentes da margem direita de um rio e muitas outras cobranças que estão na memória das pessoas que passaram pelo sistema escolar. Porém pode-se dizer que a situação mudou muito? Afinal a educação mudou, as informações são facilmente obtidas, pode-se consultar ao invés de decorar, precisa-se aprender sim, a saber pesquisar, ler, compreender e fazer da informação um conhecimento e se possível do conhecimento obter sabedoria para aplicar em diferentes situações. Mas, infelizmente como já mencionado, em muitos locais, a cobrança por dados, ainda continua pressionando as mentes dos alunos, ocupando tempo e espaço na memória, que deveria ser ocupado com questões mais fundamentais. Será que os exames realmente examinam, se examinam, examinam o quê? A nossa capacidade de aprender, ou de decorar? Os testes e exames fazem parte de um processo de avaliação, avaliação, que muitas vezes foi confundida com punição e não entendida como parte do processo de aprendizagem. As provas da forma como vem sendo preparadas e aplicadas realmente conseguem provar que os alunos aprenderam? Os exames e concursos conseguem selecionar os melhores candidatos? Muitas escolas se aperfeiçoaram na capacidade de fazer as pessoas passarem nos exames, como se a educação se resumisse nesse objetivo. Mas qual é mesmo o objetivo da escola? Educar, preparar para o trabalho, formar para vida, o lazer, o consumo, enfim a cidadania... Será que as provas e os exames conseguem selecionar e avaliar esses objetivos? Segundo a minha lógica, quando se avalia, procura-se verificar a obtenção dos objetivos e não a capacidade de memorização ou de armazenagem de informações ou conteúdos. Parece que essa lógica foi invertida. Vejamos por exemplo uma auto-escola, ela prepara as pessoas para dirigir ou para passar no exame? Não é preciso muita análise para perceber que o importante é passar no teste, aprender a dirigir mesmo, aprende-se depois, ou antes, mesmo com menor idade. Porém uma incoerência ainda maior, muitos que sabem dirigir quando vão fazer o exame não passam e outros que mecanicamente seguiram as orientações do instrutor, ou seria adestrador, passam no exame. Aprendemos, quer dizer, repetimos exaustivamente como se estivéssemos decorando nas aulas preparatórias, apenas as atividades cobradas no exame e melhor ainda, nesse exame já sabemos quais questões vão cair, o que não ocorre na vida? Os concursos são outra história à parte, cursinhos são criados para preparar só para o exame. A escolas, ou as faculdades não prepararam para o exame, daí a necessidade de corrigir essa falha da escola, mas será que foi uma falha mesmo, ou os objetivos da escola são diferentes dos objetivos do exame? Outro dia viajando de ônibus, estava lendo um autor que gosto muito, quando uma professora sentou ao meu lado e ao ver o que eu estava lendo, perguntou se iria haver algum concurso. Disse que não, e ela se espantou, reforcei que estava lendo, pois considero esse autor muito importante para o meu trabalho. Ela ficou chocada, pois estava traumatizada por ler aquele mesmo autor para um concurso recente, pediu licença e foi sentar em outro banco. Aí está demonstrada a cultura da obrigação, que ao invés de ser útil, causa aversão. Pensando no vestibular, existem escolas, que já se especializam desde cedo na preparação para concursos, pensam que não adianta perder tempo em aprender coisas, não dá para aprender tudo, é muito conteúdo para dar conta, quanto mais conteúdos, maior a probabilidade de reter uma porcentagem elevada de informações que serão devolvidas, ou seria melhor dizer, vomitadas nos testes. Será que após o vestibular, por exemplo, fica alguma coisa de conhecimento útil e significativo que possa ser aplicado na vida e no trabalho? Como reforça sempre o educador Rubem Alves, será que os professores e reitores de universidade passariam no vestibular se o prestassem hoje? Muito do que é cobrado não é útil, nem significativo, servindo apenas de pressão, coerção, um teste mais emocional do que de conhecimento. Dessa forma, tanto a escola, como o conhecimento, passam a ser coisas associadas ao medo, a coerção, com muita gente passando a não gostar de estudar e principalmente a ter pavor de testes e provas, não vendo a hora de terminar os anos de escolarização, como se a educação e o estudo não fossem tarefas para vida toda, na qual precisaríamos ter desenvolvido o gosto, a curiosidade, paixão e a autonomia para provocar uma educação continuada. As avaliações deveriam ser momentos de motivação, onde se encontra a possibilidade de verificar o que aprendeu, mas também o que não aprendeu, pois a partir dos erros pode-se buscar os acertos. A decoreba deveria ser deixada de lado, pois quando se aprende de fato, prestando atenção nos processos, nas situações, nas diversas fontes de informações, na vida e buscando significado, nem é preciso estudar, pois esse já é o estudo. Quanta gente pode-se conhecer que possui essa postura, será que eles é que estão errados? Cabe aqui relembrar o trecho da música de Beto Guedes “Sol de Primavera”, que não decorei, mas posso dizer que aprendi, pois tem significado: “a lição sabemos décor, só nos resta aprender”. Necessita-se rever a forma de avaliar e para isso é preciso também rever a forma de ensinar.
Professor Marcos Noggerini – marcos.noggerini@gmail.com

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ponto de Vista

Ponto de vista

Nossa visão pode nos enganar
Quando olhamos com as lentes do interesse pessoal
Mas usando filtros que nos livrem do preconceito e do juízo de valor
Podemos nos aproximar muito mais da verdade
Se é que ela existe

Porém um exercício mais interessante está na observação coletiva
Que permitirá a troca de olhares e o reconhecimento de outras opiniões
Além disso, e complementando
Podemos fazer uma observação mais consistente
Por que não se imaginar na posição do outro
Reconhecendo fundamentalmente
“Que você é o outro do outro”.

Sonho e Realidade

Sonho e Realidade

Uma coisa curiosa é o sonho
Tanto aquele que acorre quando dormimos
Atrelado aos mistérios da mente
Quanto aqueles que temos acordados
Como algo que queremos muito

Do sonho ao pesadelo é um passo
Tanto dormindo, quanto acordados
O risco é muito grande
E quando se sentem em situação de perigo acordam
Ufa! Foi apenas um pesadelo

Já dos pesadelos que temos acordados é mais difícil de fugir
Tentamos acordar, ou até dormir para esquecer
Mas eles nos acompanham
Existem algumas formas de fuga
Mas o pesadelo volta

Muitos dizem que não sonham
Deve faltar tempo até dormindo
Outros não sonham nem acordados
A vida os atropela
O pessimismo os derrota

Porém muitas coisas acontecem
E as pessoas, vencendo o pessimismo
Podem perceber muitos sonhos já realizados
Problemas superados
Assim o otimismo pode vencer

Grande parte das pessoas são como São Tomé
É cômodo entrar depois da fase difícil ser superada
Porém o que seria das coisas se ninguém as começasse
Alguém teve que sonhar para poder ver
E nesse momento, do sonho realizado a alegria é tanta
Que como diz um ditado chinês:
“Se eu estiver dormindo, não me acorde. Se eu estiver acordado não me deixe dormir”.

Mudanças

Mudanças
Bem vistas e mal vistas
Podem incomodar
Tirar da inércia
Romper a passividade
Mudança tem que ter motivo
Justificativa
De cima para baixo pode não ter efeito
Justa e necessária quando tem significado

Há quem olhe paras as mudanças com maus olhos
Há quem diga que a rotina é necessária para agilizar os trabalhos
E que as mudanças só trazem instabilidade e conflitos
Dizendo que precisamos fazer o que já está planejado
E não buscar novas alternativas para os mesmos problemas

Mudar para que!?
Mudamos as pessoas, mas não as rotinas!?
Os incomodados que se mudem!?
Sempre fizemos desse jeito!?
Você pensa que vai mudar o mundo!?
O mundo é assim!?

Afirmações ou perguntas?
Perguntas ou afirmações?
Muitas dessas frases são ouvidas no dia a dia
E muitas resistências são enfrentadas
Muitos estão contentes como estão
É claro que devem estar bem
Levando vantagem
Mas podem estar passivos, alienados e descomprometidos
Mudanças incomodam
Quem vai ganhar e quem vai perder
Quem também leva vantagem com a mudança
Vantagem pessoal ou coletiva?

O homem é um ser transformador
Transformou o mundo
Para o bem ou para o mal
Por vezes não previu conseqüências
Agiu por interesse
Buscou facilidades e não previu prejuízos
Ou se viu, não ligou
Mudanças agora são necessárias
Para sanar problemas e prejuízos
Na sua maioria causadas por mudanças impensadas
“Os incomodados que mudem... o mundo”.

Fazer

Fazer

O importante é fazer?
Fazer, fazer, fazer...
Fazer sem pensar

Mas, espere um pouco:
Fazer o que?
Fazer sem saber o que?
Fazer sem saber para que?

Não!
Basta de fazer sem conhecer
Sem compreender
Sem sentir
Sem reconhecer a importância desse fazer
Só assim poderei fazer bem feito

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

No circular

No circular, todos juntos vão para o mesmo lugar
Mas...
Uns vão trabalhar
Outros vão estudar
Alguns poucos vão descansar
Enquanto outros vão passear

Uns conversam
Outros se calam
Poucos clamam
Alguns reclamam
Uns trocam olhares
Outros olham, mas nem sempre são correspondidos
Outros se esbarram por querer, ou sem querer?
- Desculpe...
- Ai meu pé!
- Não tem troco!
- Espera um pouco!
- Mas eu já vou descer!
- Está lotado! Como é que eu faço?
- Um passinho para trás!
Os carros passam correndo
Os ônibus passam parando
Sobe gente
Desce gente
E eu vou ficando
Finalmente chegamos no ponto final
Mas, se é circular, como pode ter ponto final?

Fizemos o curso e estamos em curso

Foram muitos dias onde todos ensinaram e aprenderam
Pensaram, falaram, planejaram, escreveram e agiram
Mais do que saber o que é certo, procuramos saber o que era errado
Mais do que procurar respostas, aprendemos a fazer as perguntas
Além de nos perguntar o que pensamos sobre isso, ou aquilo
Quisemos saber o que os outros pensam disso ou daquilo
Fizemos coisas que nunca havíamos feito
Cantamos, dançamos e até representamos
Muitos envergonhados, outros desavergonhados
Uns quietos e outros falantes
Podemos dizer que alguns tinham medo de falar em público
Uns graduados ou doutores e outros com a mínima formação básica
Alguns que nem ouviram falar de determinados assuntos
Outros que sabiam de muita coisa, mas viram de outra forma
Uns que sabiam mas não faziam
Outros que faziam mas não sabiam
Na riqueza das diferenças houve a combinação
Da aspereza com a delicadeza
Da voz forte com a meiga
Da pergunta com as respostas
Aprendemos muito e descobrimos que temos muito mais a prender
Abrimos nossos olhos, ou até fechamos para ver melhor
Ouvimos a mensagem por detrás da música
Assim estamos superando a alienação
Começamos a compreender o todo
Alguns nem dormiam direito quando voltavam para casa
Outros sonhavam com as possibilidades
Ficamos incomodados, mas era um incomodo gostoso
Um desencanto encantador
Pois da necessidade surgem as soluções
Nos conhecemos, nos reconhecemos e nos divertimos
Vamos sentir saudades
Mas todos levam uma lembrança, uma lição de cada um
Pois aprendemos fazendo ou deixando de fazer
Podemos continuar nesse caminho
Quem continuar com certeza se encontrará novamente
Cruzaremos o mesmo caminho, ou percorreremos juntos
Sabemos que mudar instantaneamente é impossível
Pois temos que respeitar o momento e a opinião de cada um
Mas no fundo, quem quiser o bem coletivo prevalecerá
A vida se transformará ao nosso redor
Na família, na instituição, nas nossas relações
O mundo virará de pernas pro ar
Buscando uma nova forma de trabalhar, de viver
De ser feliz!
Marcos Noggerini/ outono de 2003

O que são as pessoas

Para os médicos pacientes
Para os lojistas clientes
Para os artistas público
Para os escritores leitores

Para os animais monstros
Para as galinhas ladrões de ovos
Para as vacas ladrões de leite
Para os frangos assassinos

Para os políticos votos
Para os economistas números
Para as emissoras audiência
Para a polícia suspeitos

Para os seres realmente humanos
Pessoas
Que merecem respeito
Que tem capacidade
Que tem escolha
E que pouco devem se importam com o que acham dela
Marcos Noggerini

Sonho e realidade

Uma coisa curiosa é o sonho
Tanto aquele que acorre quando dormimos
Atrelado aos mistérios da mente
Quanto aqueles que temos acordados
Como algo que queremos muito

Do sonho ao pesadelo é um passo
Tanto dormindo, quanto acordados
O risco é muito grande
E quando se sentem em situação de perigo acordam
Ufa! Foi apenas um pesadelo

Já dos pesadelos que temos acordados é mais difícil de fugir
Tentamos acordar, ou até dormir para esquecer
Mas eles nos acompanham
Existem algumas formas de fuga
Mas o pesadelo volta

Muitos dizem que não sonham
Deve faltar tempo até dormindo
Outros não sonham nem acordados
A vida os atropela
O pessimismo os derrota

Porém muitas coisas acontecem
E as pessoas, vencendo o pessimismo
Podem perceber muitos sonhos já realizados
Problemas superados
Assim o otimismo pode vencer

Grande parte das pessoas são como São Tomé
É cômodo entrar depois da fase difícil ser superada
Porém o que seria das coisas se ninguém as começasse
Alguém teve que sonhar para poder ver
E nesse momento, do sonho realizado a alegria é tanta
Que como diz um ditado chinês:
“Se eu estiver dormindo, não me acorde. Se eu estiver acordado não me deixe dormir”.

Vida

Uma vida para a luta ou uma luta para a vida
Quando se olha para trás só se vê esforços e mais esforços
Nada de arrependimento, porque tudo teve o seu papel
Nada de, se eu tivesse feito isso, se nós tivéssemos feito aquilo
O importante é ao que se chegou
E pensando bem tudo foi bom
Pois quando só se vê o mal tudo parece mau
Precisamos enxergar o lado bom das coisas
A luta, os esforços e a vida
Tudo foi, tudo é e tudo continuará sendo necessário
Necessário para se chegar ao que vale a pena na vida
Já dizia Fernando Pessoa:
“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”
Espero que as nossas almas sejam grandes o suficiente

Aprender

Quero aprender
Não para agradar ninguém
Não para ganhar um presente
Não por medo de apanhar
Não apenas para tirar notas boas
Não apenas para repetir e reproduzir como papagaio

Quero aprender
Por curiosidade
Pra compreender melhor o mundo
Para me tornar mais consciente
Crítico e capaz
Para superar injustiças
Conclamar o respeito a vida
Aprender para melhor viver
E viver para melhor aprender

Eu quero que me permitam
Aprender a aprender
Mas como fazer isso?
Superar barreiras
A amarras de um mundo repleto de cobranças
Que vão contra os meus valores
Contra o meu jeito de ser

O que dizer a um pai que diz que se o filho passar ele ganhará um presente
O que dizer a um outro que o ameaça com violência
O que dizer a um professor que faz coerção usando a nota como arma
Ou do outro que faz chantagem
O que fazer então?

Esse jeito de ver o mundo
Só gera o medo de errar
Ou ainda, que qualquer coisa serve
Será que é possível?
Como transformar?
Seria um sonho acreditar?
Como poderíamos começar?

A importância do erro

Errar, errar, errar, errar, errar, errar, errar, errar, errar...
Errar, errar, errar, errar, errar, errar, errar, errar, acertar
Errar, errar, errar, errar, errar, errar, errar, acertar, acertar
Errar, errar, errar, errar, errar, errar, acertar, acertar, acertar
Errar, errar, errar, errar, errar, acertar, acertar, acertar, acertar
Errar, errar, errar, errar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar
Errar, errar, errar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar
Errar, errar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar
Errar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar
Acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar, acertar...

Se a gente não errasse acho que perderia a graça, o desafio, o gosto pelo aprender, pelo procurar, pelo desconfiar, pelo tentar fazer melhor, pelo diferente, que nos encanta, que nos domina, que nos instiga a uma eterna busca insaciável.


Marcos Noggerini/ Setembro de 2002

Identidade

Identidade

Não, não é só um documento de identificação!
Torna-se alvo de uma busca, apesar de que muitos não a busquem.
Busca essa, muitas vezes individual, mas que para um resultado mais significativo para as instituições deve ser almejada coletivamente.
Idéias em comum, entendimento de mundo, Filosofia, objetivos, metodologias e formas de se avaliar. Para onde vamos?
Tudo que possa delinear um caminho em busca de um bem estar comum.
Procurar, reconhecer ou até formar, pois ela nunca estará acabada.
Primeiro encontrar a própria e depois a do outro, ou por que não ao contrário.
Percebe-se que muitos têm dificuldades de enxergar a si próprios, mas a partir do outro podem refletir sobre suas posturas.
Assim, com o uso da observação e da reflexão. Do espelho para o vidro ou do vidro para o espelho.
Resistências vão ocorrer, pessoais e institucionais, assim como estruturais, mas tudo pode ser alcançado minimamente almejado. Pois da ocasião pode surgir a necessidade, porém às vezes não podemos esperar a situação. Daí o poder da necessidade, quando mais coletivamente refletida, discutida e motivada de criar a ocasião.
Quando a ocasião é criada, cobra-nos a perseverança, que não deve ser restrita.
O tempo não deve ser um inimigo, pois a velocidade e o imediatismo na busca de metas ou resultados rápidos só tem levado a perda de tempo..
Ouvir, falar, trocar e buscar. Juntos para identificar os elos que possam unir as pessoas.
O que já se têm em comum?
Em que há discordância e por quê?
Quando a maioria vence, muitos ficam descontentes. O ideal está na busca de um consenso. A investigação, a construção e o delineamento de uma identidade, requerem muito esforço, mas também pode propiciar clareza, coerência e fundamentalmente autonomia para as ações.
Dessa forma o reconhecimento pode ser amplo, deixando clara a identidade, não só para quem atua, direta ou indiretamente, mas também para quem observa.
Nesse ponto pode estar o fator fundamental que a construção de uma identidade pode proporcionar, a confiança.
A confiança em quem pensa.
A confiança em quem faz.
A confiança em quem critica.
A confiança e a certeza de que se tem uma identidade.


Marcos Roberto Noggerini / 2001

Mãos

Mãos

Quantas histórias nos contam nossas mãos
Lembranças, recordações, ações...
A mão que age ou deixa de agir
A mão que faz ou deixa de fazer
Erra ou acerta, por ação ou omissão

Quantos locais tocou, que não deveria ter tocado
Quantas coisas fez, que não deveria ter feito
Quantas vezes tremeu, e deixou de fazer
Quantas vezes fez, mas fez mal feito
Quantas vezes resolveu

Ela carrega na sua forma essas lembranças, culpas, satisfações...
Quantas mãos apertou
Quantas cabeças acariciou
Quantas pessoas abraçou
Quantas vezes ajudou
Quantas vezes atrapalhou
Agrediu, xingou, apontou, acusou...
Quantas vezes mentiu
Quantas vezes se queimou

A partir das suas ações o homem desenvolveu o raciocínio, a inteligência, o pensamento...
E a partir dela: falou, demonstrou, envolveu, compreendeu...
Errou, errou, errou e aprendeu
Formulou idéias e soluções que muitas vezes não voltaram para a ação
Daí à distância entre pensamento e a ação
Entre o falar e o agir
Entre o pensar e o fazer

Quantas injustiças cometeu
Quantas vidas salvou
E quantas trouxe ao mundo
Quantas vidas também tirou

Mão que na maioria das vezes é objeto
Mão que como sujeito, corta as unhas dos dedos da outra mão
Mão que como objeto deixa-se cortar

Mãos que trabalham
Mãos que cansam
Mãos que descansam
Mãos que plantam
Mãos que cuidam
Mãos que colhem
Mão que escolhem
Mãos que devem sempre provocar reflexões
O que estamos fazendo?

Marcos Noggerini – 13/09/2002

domingo, 18 de janeiro de 2009

Combinação

Combina ou não combina?

Qualidade combina com quantidade?
Rapidez combina com paciência?
Fragmentação combina com compreensão?
Automatização combina com comprometimento?
Rotina combina com prazer?

Todas combinam!
Como a água combina com o fogo
Como o gato com o rato
Como a agulha com a bexiga
Combinam a destruição

Que tal combinar para cooperação?
Como o princípio com a identidade
Como o objetivo com a metodologia
Como o tempo necessário com o tempo disponível
Como a ação com a Filosofia

Como o café combina com o leite
Como o arroz combina com o feijão
Elementos que mesmo diferentes se complementam
Respeitando as individualidades

Como o respeito e a ética devem permear todas as ações
Como da criatividade pode vir à solução
Como o pensar deve combinar com o fazer
Como o sonho deve combinar com a realidade

Marcos Noggerini/2003

Trabalho m Grupo

Muito se cobra que o trabalho tenha que ser realizado coletivamente, mas pouco se pratica e se analisa como, além de ser feito coletivamente, que obtenha melhores resultados. Esbarra-se tanto em conflitos pessoais, como principalmente na falta de prática. Nada melhor do que a vivência para que aos poucos percebamos as dificuldades que os participantes de um grupo enfrentam. As decisões coletivas podem ser mais demoradas, mas com certeza o comprometimento aumenta e aos poucos o grupo vai se conhecendo e até ganha não só em agilidade, mas principalmente em criatividade e autenticidade.
O trabalho em grupo sofre muito preconceito, pois muitas pessoas não conhecem, não sabem como fazê-lo, estigmatizando suas características, menosprezando seu potencial e depreciando sua utilidade. Historicamente a organização de pessoas não foi nada bem vista, mas bem vista por quem? Pelo menos pelos grupos dominantes que, conservadoramente, preferem que as coisas permaneçam como estão. O trabalho em grupo representava e ainda representa em muitos locais um grande risco, pois ao discutir coletivamente, várias perspectivas são consideradas, o que denuncia possibilidades de erros, inclusive dos que comandam. Daí o grande conflito, ao debater e discutir, abre-se espaço para uma análise que privilegia a crítica e onde as mazelas podem surgir como pistas dos possíveis entraves ao andamento das atividades. O medo de se expor perante o grupo, a demora nas decisões, o individualismo, o egoísmo, o desrespeito às individualidades, a falta de prática, a sobrecarga de trabalho sobre alguns, a passividade de outros, o medo ou receio de delegar de outros, a desconfiança e muitas outras desculpas servem para explicar, mas nunca para justificar a não adoção do trabalho em grupo como metodologia.
É muito fácil nesse tipo de trabalho encontrar erros nos outros, desrespeitando as características pessoais e a individualidade das pessoas. Deve-se reconhecer que as pessoas são diferentes e em qualquer relação precisam ser respeitadas na busca de suas virtudes. Só assim, trabalhando com transparência, respeito e ética pode-se fazer da relação de grupo a solução para o comprometimento tão necessário a realização de tarefas cada vez mais íntegras e que satisfaçam a todos. Dessa forma a avaliação é distribuída na coletividade e o trabalho passa a não ser mais meu ou seu, mas nosso.
O trabalho em grupo ao mesmo tempo em que pode causar grandes conflitos, principalmente no início, aos poucos deve trazer muita satisfação. A confiança, a construção da identidade e a consciência das possibilidades que ele pode nos trazer, fazem do trabalho em grupo a metodologia ideal para que as pessoas sejam respeitadas em suas individualidades e o grupo cresça com objetivos claros autênticos e íntegros. O conhecimento da identidade do grupo trás com ele a autonomia tão necessária para que a agilidade possa prevalecer, porém nunca deixando de lado a qualidade tão almejada por todos. A consciência coletiva passa a imperar e problemas individuais são superados com maior tranqüilidade já que a cumplicidade passa a existir. Assim as metas tornam-se mais próximas e as palavras saem de um sonho idealizado ou utópico, para as diversas ações que o grupo passa a realizar. Cooperar é preciso, provocar a cooperação também!

Você consegue colocar a não direita no cotovelo direito?

A nossa primeira reação para resolver problemas como este é tentar fazer sozinhos, mas vocês verão que isso é impossível. Mais uma vez o ser humano demonstra seu individualismo, sempre querendo uma solução simples e superficial, pulando a etapa mais importante de uma ação, a reflexão sobre a ação. Mais ainda torna-se evidente que só buscamos o outro para ajudar quando não conseguimos realizar sozinhos. Muitos dizem que isso é uma demonstração de autonomia, de mostra de potencial e até de poder, porém essa forma de agir também pode demonstrar a dificuldade mais básica de todos os problemas enfrentados pelo ser humano, o relacionamento interpessoal. Muitos vêem os outros, mais como problemas do que como soluções, não reconhecendo que, com mais pessoas envolvidas no processo, maiores possibilidades de melhoramentos podem ocorrer. Temos dificuldade nesse processo sim, mas por uma cultura que monopolizou ações individuais em detrimento das coletivas, com isso a cultura cooperativa não teve tanto estímulo e ainda sofre com preconceitos e estigmas, ocasionados principalmente pela falta de experiência. Cooperação é um conceito que supera a simplicidade da ajuda ou da colaboração, na verdade deve trazer embutida nela a consciência do que se está fazendo juntamente com a motivação para fazer, isso somado temos uma das maiores buscas em diferentes áreas, o comprometimento.
Na natureza vemos diversos exemplos de cooperação nas mais variadas espécies de seres vivos: plantas, insetos e animais cooperam para satisfação das necessidades. Nesse caso por se tratar de seres irracionais, utilizam o instinto para substituir a consciência. Já no ser humano o tema se torna mais complexo, pois envolve diferentes culturas, diferentes individualidades, identidades e a autonomia, fatores que diferenciam o homem, proporcionando a ele a capacidade de reflexão e julgamento. Isso fará com que nem todos queiram cooperar, pois possuem a liberdade em optar. Porém e quem não tem liberdade de escolha e faz por imposição, pura necessidade básica, sem motivação? Podemos dizer que está cooperando, pode se tornar uma pessoa comprometida? Em alguns casos até que sim.
Em muitas ações no cotidiano do ser humano podemos perceber exemplos de cooperação: na família, na comunidade, no trabalho, em associações. Nessas instâncias existem inúmeros exemplos de cooperação. O que move essas pessoas para cooperar? Quais aspectos podemos perceber, que tornam as pessoas mais cooperativas? Vejamos o exemplo do mutirão, o que faz com que as pessoas colaborem? Um objetivo em comum, a solidariedade, a curiosidade, o desafio? Por outro lado o que faz com que as pessoas não cooperem? O individualismo, o egoísmo, a falta de tempo, o desinteresse?
Essas reflexões podem permitir as pessoas, as mais diferentes respostas, que podem levar as mais diferentes conclusões. A complexidade do ser humano é evidente, assim como a instabilidade e a variação em diferentes contextos e situações. Cabe a nós envolvidos nas ações, analisar, refletir e buscar alternativas para sensibilizar, mobilizar, envolver e cooperar para que as pessoas cooperem em ações necessárias ao coletivo.